Entrevista com Vera Santana
“A cultura é vida e tudo que tem na vida é cultura”
A potiguar Vera Lúcia Santana Melo de Castro é a idealizadora e responsável pelo Conexão Felipe Camarão. Formada em Estudos Sociais e História pela UFRN e com mestrado em História pela UFRJ, Vera atuou em diversos órgãos de governo voltados para cultura e educação, tanto no Rio de Janeiro como em Natal. Idealizou o Projeto Canta Meu Boi, de Registro Fonográfico do Auto de Boi de Reis do Mestre Manoel Marinheiro, e logo após o Projeto Conexão Felipe Camarão, onde atua como coordenadora geral. Vencedora do prêmio TUXÁUA Cultura Viva 2010, ela nos fala um pouco sobre o projeto.
Vera Santana: Quando trabalhei nas secretarias de educação vi que não poderia avançar como desejava, dentro de todos os princípios que aprendi com Paulo Freire, Darcy Ribeiro, entre outros mestres da educação. Eu queria criar um projeto educacional dos meus sonhos e pensei numa educação de uma maneira mais humanizada. Foi aí que fiz uma viagem ao passado, lembrando das brincadeiras da infância, das festas de final de ano, das tradições. Na minha infância tinha Manoel Marinheiro, com o Boi de Reis. Então pensei: por que não resgatar essa cultura para o ensino nas escolas? Fui até Felipe Camarão e encontrei o Mestre. Manoel, com todo seu potencial, não conseguia entrar na escola. Ele passava sua cultura apenas para aquelas crianças mais próximas. Existia um “muro” entre a cultura popular do Mestre e a escola da comunidade. O que a gente fez foi levar o boi para escola e a partir daí a gente começou a pensar no registro fonográfico e a Petrobras Musical conseguiu o primeiro patrocínio. Tudo começou por aí e depois conseguimos recursos para ele ensinar os meninos através de aulas. Essa mesma iniciativa aconteceu com os outros mestres da comunidade, criando formas de oferecer para todos esses meninos e meninas de Felipe Camarão a oportunidade deles poderem reconhecer sua cultura. A Escola Estadual Clara Camarão foi a primeira a abrir as portas e fazer parte do projeto. Assim criamos o Conexão Felipe Camarão.
Vera: O sistema educacional brasileiro precisa avançar no entendimento que a educação tem que estar integrada a história, a cultura. É preciso ter entendimento da história. Existem atitudes isoladas, mas é preciso essa mudança de paradigmas, é preciso se criar uma política pública para valorização do sistema integrado a essa realizada brasileira no dia a dia da escola. A proposta do projeto é pegar essa tradição oral, essa ancestralidade, esses patrimônios imateriais, que não estão nos bancos da escola, e inseri-los no dia a dia da escola. Essa é a proposta do projeto. E não só nesse sentido, mas também no “Quem eu sou?”, “O que eu estou fazendo nesse espaço?”, “E para onde eu vou?”. Tudo isso deve ser passado para um jovem que entra na escola e não sabe o que ele vai esperar do vestibular quando chegar. Geralmente ele não se sente ator de um processo social. Se sente uma pessoa que não tem possibilidade e sem entender os bens e direitos. A cultura possibilita tudo isso. Como dizia Paulo Freire, Darci Ribeiro, Anísio Teixeira, que educação é desenvolvimento humano e não se faz educação sem o entendimento da cultura, do ponto de vista antropológico, da sociedade. A comunicação e a interação vêm justamente para possibilitar que a comunidade se expresse.
Como é que esses meninos, esses jovens, que passam pelos bancos das escolas, da pré-escola a universidade, e não tem o entendimento e sentimento da sua história e dos antepassados? É dentro desse pensamento que tentamos mudar.
Vera: A proposta vai muito além, como falei anteriormente, mas se tratando da cultura imaterial, o que a gente faz com o Boi de Reis, o Mestre Cícero da Rabeca, o Mestre Marcos da Capoeira, e os outros mestres, é colaborar na preservação e difusão dessa cultura que é um patrimônio imaterial da comunidade de Felipe Camarão, sendo todos eles uma referência cultural. A gente vai integrando essa população e vendo quais os caminhos que podem avançar para sustentabilidade. A partir daí se trabalha a educação em parceria com as escolas.
Vera: Educação, cultura e comunicação. Esses são os três eixos do projeto. A comunidade de Felipe Camarão é uma comunidade isolada, onde os bens e os direitos são sofríveis. São necessárias mudanças. As políticas públicas nas diversas áreas não atendem as necessidades dos 75 mil habitantes da comunidade. A população precisa de maiores investimentos para que ela possa se colocar e interagir com Natal, com o Estado e com o país. A gente detecta em Felipe Camarão a possibilidade desses moradores avançarem em suas vidas, mas aprendendo que eles tenham o entendimento dos seus direitos e exerçam isso. É isso que falta. É preciso que a comunidade esteja integrada ao desenvolvimento político e social da capital.
O conexão é um projeto que tem como proposta a educação integral. Todo sistema de educação deve integrar no dia a dia da escola a cultura local, mas isso não acontece. Além das disciplinas, como Português, Matemática, História, Geografia, existe a necessidade de integrar todo esse aprendizado com a cultura. O Conexão Felipe Camarão tem colocado temas educacionais, através das oficinas de arte e cultura, quando se ensina o português, os direitos do cidadão, discutir a cidadania, quem é o poder legislativo, judiciário, entre outros assuntos. A idéia é que esse dia a dia do Conexão esteja integrado naturalmente ao currículo escolar, da pré-escola ao segundo grau. O objetivo não é tirar o jovem da rua. Ele pode ir à rua com consciência do que ele é e o que ele está fazendo com a vida dele. A rua também é um espaço de aprendizado, de vida. Ele pode ir, mas com dignidade. A nossa meta é que esse conteúdo, esses temas discutidos no Conexão, seja um processo natural dentro do ensino médio e fundamental da escola. Tudo integrado.
Sim, eu sinto que nos últimos anos vem mudando. Tudo isso através das conversas com os gestores das escolas, dos alunos, da comunidade. Esses meninos e meninas que estão no Conexão estão na escola também. Essa integração e a prática estão contribuindo com a mudança desse ensino. Hoje o diálogo é outro. Quando a gente convida pessoas de renomes nacionais para participarem das Rodas de Prosa, que realizamos a cada semestre é para mostrar que é possível mudar essa forma de educar. Os professores da comunidade têm a oportunidade de dialogar direto com o quem está reformulando a forma de educar. Eu por exemplo não tive a oportunidade de conhecer na escola, quando estudante do primário, a riqueza imaterial da minha cidade, como por exemplo: a cultura do Mestre Manoel Marinheiro. O professor que está na sala de aula hoje, em Felipe Camarão, está tendo essa oportunidade de repassar esse conhecimento para seus alunos. A cultura não é somente os segmentos, como teatro, dança, música, literatura e artista plásticas, como nós fomos educados. A cultura é vida e tudo que tem na vida é cultura.
Entrevista com Eliane Costa – Gerente de patrocínio da Petrobras
Por: Gustavo Farache
Presente no planejamento estratégico de empresas e do setor público, os patrocínios culturais são importantes ferramentas para o desenvolvimento dos negócios e da sociedade. Quando o assunto é relacionado às ações culturais realizadas por Organizações Não Governamentais e Pontos de Cultura, os patrocínios são fundamentais para manutenção dos projetos. Para falar um pouco sobre essa grande contribuição para a cultura nacional nós convidamos a Gerente de patrocínios da Petrobras, Eliane Costa. Em entrevista para revista Conexão Felipe Camarão ela fala sobre os princípios desta política como o investimento na Petrobras, como são feitas as escolhas dos projetos e a experiência da maior patrocinadora cultural do País, a própria Petrobras.
Conexão F. Camarão - Como funciona a área de patrocínios da Petrobras?
Eliane Costa - A Petrobras tem uma política de patrocínio com dois pilares: um é naturalmente o projeto estratégico da companhia, que são as prioridades e valores da empresa. O segundo direcionador são as políticas públicas para cultura, emanadas pelo Ministério da Cultura, já que a Petrobras atua em sintonia com a política pública. Dentro desses dois direcionadores existe um ponto em comum, que é o sentido do compromisso social, da responsabilidade social, que a Petrobras, pela sua própria história e formação é uma empresa que não atua só no ponto de vista no sentido do lucro. Isso se reflete na ação de patrocínio. A Petrobras busca patrocinar, não só como visibilidade de marca, mas no sentido de colaborar com a cultura brasileira. Com a valorização da cultura, busca atuar na questão da memória, dos acervos, o registro dos acervos em materiais, o cuidado com aqueles que já estão registrados, mas que muitas vezes está em condições ruins de conservação, além de fonte de formação e educação para as artes. Então esses dois direcionadores, política pública e direcionamento estratégico da empresa, têm em comum essa coisa que o patrocínio não é meramente vinculação a marca. É claro que o patrocínio é uma das ferramentas da comunicação com os seus públicos, como é a publicidade, a propaganda, a assessoria de imprensa. O patrocínio é uma grande ferramenta, mas não é o único vetor. Sempre temos o compromisso de valorização. A Petrobras também atua de uma forma integrada na cultura não só na produção, mas também buscando apoiar a circulação de difusão dos produtos, que hoje é um grande gargalo da cultura, pois hoje é mais fácil você produzir do que fazer com que essa produção chegue às pessoas. Então trabalhar o patrocínio não só com ações de produção, mas também de difusão, de formação, de memória e reflexão.
Conexão - Como são selecionados os projetos e quais os tipos de patrocínios?
Eliane - A Petrobras trabalha com quatro categorias: a seleção pública, projetos convidados e projetos continuados de oportunidades. A primeira categoria é a Seleção Pública, que tem como objetivo a diversidade étnica e regional, além da democratização do acesso a verba. A segunda categoria é a de Projetos Convidados Ações Continuadas, que são grandes projetos que a Petrobras associa sua marca, tipo: Grupo Corpo e Orquestra Petrobras Sinfônica. São projetos que a Petrobras visa visibilidade de marca, associação de valores e continuidade. Na terceira categoria estão os Projetos Continuados de Oportunidades. São os projetos que ao longo do ano chegam a Petrobras e que dependendo ou não da existência de orçamento são patrocinados. O objetivo é atender as demandas pontuais, que não entraram nem por seleção pública e nem são ações continuadas. Por último tem o que a gente chama de Ação Petrobras Ministério da Cultura. O Objetivo é suporte a política pública e são ações do ministério da Cultura levadas pelo ministério a Petrobras, que havendo orçamento a empresa apóia no sentido de ser parceiro do ministério em ações estruturantes, editais de seleção pública, etc.
Conexão - O Conexão Felipe Camarão se encaixa em que categoria?
Eliane - O conexão entrou na Petrobras pela seleção pública de música de 2002, no Programa Petrobras Música, e em 2003 o programa Petrobras englobou todos os programas. Depois o Conexão Felipe Camarão se tornou uma ação continuada, projeto convidado de ação continuada e segue até hoje como Projetos Convidados de Ação Continuada.
Conexão - Na sua opinião, o que o Conexão Felipe Camarão representa para o Rio Grande do Norte?
Eliane - Eu acho que ele representa expressão de uma cultura regional, ressonância para uma manifestação cultural tradicional, que por vezes não encontra a devida ressonância na grande mídia, nos grandes meios de comunicação. Então é importante, por meio de uma seleção pública a Petrobras ter chegado a esse projeto. A seleção pública tem exatamente esse objetivo, abrir para que projetos de diferentes aspectos étnicos e regionais consigam o patrocínio. O conexão Felipe Camarão é um projeto muito importante porque ele alia as questões de formação com questões de difusão, de acervos imateriais, como a rabeca, os bonecos, o Boi de Reis. Ele é importante porque congrega esses objetivos de formação, difusão e de valorização da cultura brasileira em toda sua diversidade.
Conexão - Como vocês medem o retorno do patrocínio dos projetos voltados para a cultura e responsabilidade social?
Eliane - É uma questão muito complicada. Quando você mede um retorno de uma marca, você faz pesquisas em cada região. O problema é que você não consegue determinar exatamente se, por exemplo, o aumento do recall da Petrebras em determinada região ele foi devido a uma cão de patrocínio, ou de uma propaganda de produto, ou de uma notícia. É difícil trabalhar em cima das pesquisas porque você acaba não conseguindo saber em que parte dessa melhoria ou piora na marca, naquela região decorre de que? A gente não sabe se foi por uma ação importante, ou se foi a construção de uma refinaria... Realmente não dá para saber exatamente. Na Petrobras a agente ta começando a adotar um sistema chamado Metricom, que passa a tentar mensurar os ganhos de uma determinada ação de patrocínio. Isso está em implantação, é uma proposta piloto, e visa exatamente trazer algum elemento mais objetivo para essa avaliação. No momento da contratação de um projeto a gente vai estimar quantas pessoas devem ser atingidas, de que forma, e no final vamos medir se aquela ação proposta atingiu seus objetivos.